“Sempre que o país enfrenta uma conjuntura
delicada no terreno econômico, social ou político, ou ainda durante campanhas
eleitorais acirradas, a imprensa se transforma na principal arena de
confronto entre posições antagônicas, deixando em segundo plano os
debates parlamentares.
Este fenômeno não é fruto de uma
conjuntura específica, mas um processo estrutural cujos efeitos tendem a se
prolongar. A origem está no fato de que a busca visibilidade pública
por políticos e governantes como parte da preocupação com apoios
eleitorais tornou-se mais importante do que a busca por soluções para os
problemas nacionais.
Como a imprensa é a instituição mediadora
entre a massa da população e os seus dirigentes políticos, ela,
inevitavelmente, acabou se tornando mais importante do que a tribuna
parlamentar para deputados e senadores. Com isso, os legisladores e
governantes passaram a pautar suas ações mais pela forma como elas são
transmitidas pela mídia jornalística do que pelo conteúdo do problema em debate.
Esta transferência de funções partidárias
foi intensificada pela perda de identidade ideológica das
diferentes siglas representadas no poder legislativo federal, estadual e
municipal. A miríade de partidos brasileiros não representa hoje nada além do
que estratégias de permanência ou conquista do poder, sem falar nos egos.
Esta “desidratação” de partidos
políticos já ficou evidente para o eleitorado a ponto de no primeiro turno
das eleições deste ano terem se registrado resultados como o do Maranhão, onde
o governador eleito é do Partido Comunista Brasileiro enquanto o seu
companheiro de chapa é de um partido conservador. Quem ainda tem uma vaga ideia
do que foi o marxismo deve ter levado um susto quando o novo governador
maranhense anunciou que dará “um choque de capitalismo” em sua gestão.
A descaracterização da atividade
partidária no país deveria ter sido um processo tratado pela imprensa como tema
de interesse público, mas aconteceu justamente o contrário. Em vez de assumir
um papel crítico em relação à utilização dos meios de comunicação com
substitutos das tribunas legislativas, os jornais, revistas, emissoras de
rádio, telejornais e páginas noticiosas na Web transformaram-se em peças
de estratégias de marketing político baseado na mídia de massa.
Esta alteração de prioridades foi
facilitada pela mudança estrutural na ação partidária, mas teve também os
seus atrativos econômicos, nem sempre visíveis. É preciso levar em
conta que toda a imprensa vive hoje um momento de profunda incerteza financeira
porque seu modelo de negócios está sendo implodido pelo uso da internet como
plataforma de distribuição massiva de notícias de atualidade.
As receitas com publicidade e vendagem
minguaram e o futuro é cada vez mais sombrio para a imprensa. Uma das
estratégias adotadas pelos donos de conglomerados jornalísticos é procurar
algum tipo de apoio financeiro estatal e este, obviamente, está
condicionado a favores políticos. Neste ponto uniram-se a fome com a vontade de
comer – e a imprensa assumiu plenamente uma função partidária complementar às
estratégias de interesses oposicionistas e oficialistas. A imprensa assume
assim o risco de envolver-se no mesmo mecanismo corruptor de troca de favores
políticos por benefícios financeiros que está na origem dos escândalos do
“mensalão” e da Petrobras.
É bom lembrar que o ódio da revista Veja em relação ao lulopetismo tem
origem no fim de um milionário contrato de impressão de livros didáticos pela
Editora Abril, determinado durante o governo do ex-presidente Lula.
Coincidência ou não, foi a partir do fim desse privilégio que começaram as
agruras orçamentárias da editora, cuja revista semanal de informações
assumiu, sem muitos disfarces, a função de um partido político oposicionista.
A mudança do papel político de muitos
órgãos da imprensa ainda não foi percebida pela maioria dos leitores,
ouvintes e telespectadores que continuam sob a influência da herança cultural
criada pela ideia de independência dos meios jornalísticos de comunicação. Mas
o quadro está mudando rapidamente – como fica expresso nas pesquisas de
credibilidade na imprensa, que registram uma queda continuada, apesar dos
índices de confiança ainda serem mais elevados do que noutros países, como os
Estados Unidos.
A função partidária da imprensa é um tema
complexo que precisa ser discutido com intensidade principalmente pelos
cidadãos, já que eles são os mais afetados pela mudança no papel dos meios
de comunicação. Este texto nem de longe pretende ser definitivo porque não sou
um especialista na questão. Ele precisa ser complementado com percepções
diversificadas e mais aprofundadas, porque envolve muitas outras áreas de
estudo. O tema é um desafio para os jornalistas e para os cientistas políticos.
Por isso, ele deve ser visto como um convite para o início de uma troca
de ideias que será longa e complexa. “
Por Carlos Castilho em 12/10/2014, acesse o link abaixo e leia na íntegra:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/posts/view/a_imprensa_com_funcoes_de_partido_politico